quinta-feira, 11 de março de 2010

Campanha inteligente e ‘desbocada’

A AIDES, pioneira organização francesa na luta contra a Aids, criada em 1984, lançou esta campanha extremamente criativa (e explícita!) prá estimular o uso da camisinha masculina. Está dirigida ‘graficamente’ à população heterossexual, mas deve atingir também o público homo.



Talvez vocês já conheçam a peça, mas ainda assim achei que valia a pena postar.
Os ‘graffiti’ são hilários, né?

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Sexo Oral – Parte 3

Ora, ora: ‘quando a boca encontra um pau pelo caminho’ o que acontece é muito prazer prá ambos, com certeza. O que não precisa acontecer é risco de pegar HIV!
Por isso, atenção: a relativização dos riscos do sexo oral é diferente quando se trata de boca chupando pau (felação, fellatio), porque neste caso o pau entra na boca e/ou na garganta, diferente da relação boca-boceta. Claro, aqui também se deve avaliar quem faz o quê: quem tá sendo chupado corre menos riscos do que quem tá chupando. Exceto sob circunstancia de sangramento, da boca de uma pessoa não sai HIV, mas é possível a presença de outras DST, como sífilis, herpes e gonorréia, especialmente na orofaringe (garganta). Por outro lado, quem tá chupando o pau corre mais riscos, tanto frente ao HIV quanto às outras DST.

De novo, assim como na relação boca-boceta, sobre a relação boca-pau vai rolar um olhar moralizante, especialmente se for praticada entre homens. Em parte por isso, aqui as controvérsias são muito maiores, embora aos poucos se chegue ao consenso de que a prática de sexo oral entre homens é de muito baixo risco, sendo dependente de outras variáveis.

Em 2002 foi publicado um estudo realizado em San Francisco, Califórnia (EUA). Dentre mais de 10.000 homens homossexuais que procuraram testes anti-HIV (entre Dezembro de 1999 e 2001) foram recrutados 239 que informaram ter praticado apenas sexo oral nos últimos seis meses. Em média, tinham tido três diferentes parceiros nesse período e a maioria (98%) não tinha usado camisinha no sexo oral. Um terço tinha deixado gozarem na boca e destes a maioria (70%) tinha engolido a porra. Após a testagem destes 239 homens, nenhuma das sorologias resultou positiva para HIV, confirmando que a infecção pelo sexo oral é rara.
Este estudo contradisse trabalho anterior, também realizado em San Francisco, em que foi sugerido que 7,8% das infecções pelo HIV entre gays eram decorrentes de sexo oral (a saber, 8 casos entre 102 homens!).

Posteriormente, em 2006, foi publicada no periódico inglês Oral Diseases uma extensa revisão da literatura científica, realizada por Campo et al, sobre sexo oral e os riscos frente à infecção pelo HIV. Segundo os autores, ficou evidente que o risco de transmissão do HIV por sexo oral é muito pequeno, além de substancialmente menor do que no sexo vaginal ou anal desprotegidos.

A mucosa oral saudável e íntegra é uma ótima barreira contra infecções por microrganismos causadores de doenças, inclusive vírus. Imunoglobulinas e outras proteínas presentes na saliva são excelentes (embora não absolutos) fatores de proteção do nosso organismo. Afinal de contas, basta pensar que a boca é o maior ‘buraco’ do nosso organismo em contato com um meio externo que pode ser adverso e, portanto, tem naturalmente mecanismos protetores. No entanto, rupturas na mucosa oral, causadas por doenças ou traumas, como lesões, aftas, úlceras ou gengivites (sangramento gengival) podem facilitar tanto a presença de sangue (eventualmente contaminado) na cavidade oral quanto a penetração de microrganismos e vírus no organismo.
É importante dispor de tais informações para poder avaliar riscos e fazer as escolhas mais adequadas. Conforme o relato de muitos homens, tanto hetero quanto homossexuais, o sexo oral é uma das alternativas preferidas nas relações casuais. Entre gays, está presente nos relatos de relações em parques, banheiros e outros locais públicos, especialmente por ser ‘jogo rápido’ e sem muito papo (até porque é feio falar de boca cheia...).


Nestas circunstâncias, que nem sempre ocorrem de forma premeditada, muitas vezes não tem camisinha disponível. Ou, mesmo tendo, as pessoas preferem ou decidem não usar.
Embora a recomendação internacional seja chupar com camisinha (e é prá isso que existem as com sabor, encontráveis em qualquer farmácia ou supermercado), uma alternativa de redução de riscos é pedir pro cara não gozar dentro da boca. Embora o líquido seminal ou pré-ejaculatório possa conter o HIV (se o cara estiver infectado, claro) em geral sua quantidade é muito menor do que a quantidade de esperma que é liberada ao gozar. O cara pode gozar no rosto ou no corpo do que está chupando, onde achar melhor.

Se o cara não conseguir segurar ou se os dois decidirem que é prá gozar na boca mesmo, há quem sugira que é melhor não engolir, prá evitar as chances de contato com eventuais lesões no percurso até o estômago.
E se alguém decidir não usar camisinha, quiser que o cara goze na boca, e achar mais interessante engolir a porra, bem... cada um decide os riscos que quer correr. Matematicamente, as chances de infecção são pequenas, mas elas estão presentes e aumentam com o número de exposições.
Os estudos que pretendem quantificar estes riscos estatisticamente representam cálculos estimativos. Mesmo assim, tendo claro que são estimativas, os números variam de 0,01% a 0,04% por exposição, para quem tá chupando um pau sem camisinha (ou seja, as chances matemáticas de contrair o HIV dessa forma variam entre 1 a 4 por 10.000, em cada exposição!). Prá quem tá sendo chupado sem usar camisinha o risco é menor ainda, estimado em 0,005% ou 1 chance por 20.000, por exposição.

A regra é praticar sexo oral com camisinha.
Se não tiver camisinha disponível ou não quiser usar, uma alternativa é chupar sem camisinha e pedir pro cara não gozar na boca (pode gozar no rosto ou em outras partes do corpo do parceiro).
Se o cara não conseguiu ‘segurar’ e gozou na boca, ou se ambos queriam que a gozada fosse na boca mesmo, cuspa e não engula.
De qualquer forma, na falta de preservativos, o sexo oral ainda é menos arriscado do que a penetração anal.
Não caia na armadilha do ‘fodido, fodido e meio’: só por que chupou ou foi chupado sem camisinha não é motivo prá deixar de usar preservativo se, na sequência, rolar ‘dar’ ou ‘comer’.Ou seja, quando o rolo for ‘dar’ ou ‘comer’, não pode ter vacilo: camisinha sempre.

Sexo anal é o tema de próximas postagens. Aguarde!












segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sexo Oral – Parte 2

Já vimos que quando a gente tá sendo chupado, tanto faz se quem nos chupa é homem ou mulher: o risco frente ao HIV, nesse caso, não varia. Agora, quando é a gente que tá chupando, prá fazer uma avaliação bem feita é preciso levar em conta se o sexo oral tá rolando entre homens, ou entre mulheres, ou entre homens e mulheres.

Começando pelo mais simples (epidemiologicamente falando!): nestes 30 anos de epidemia de HIV/aids são extremamente raros os supostos casos de transmissão sexual entre mulheres. Nos casos investigados, em geral estão presentes outros riscos, como relações com parceiros masculinos ou compartilhamento de seringas.
Um estudo realizado com mais de um milhão (sim, um milhão) de mulheres doadoras de sangue não identificou nenhuma mulher infectada pelo HIV entre aquelas cujo único risco era manter relações sexuais com outras mulheres. Até o momento, não há casos confirmados de transmissão homossexual entre mulheres tanto nos Estados Unidos (conforme dados atuais do CDC) quanto aqui no Brasil (conforme dados do Ministério da Saúde).

Aqui dá prá fazer uma inflexão: como é que fica aquela história de que a aids é um castigo divino prá punir os homossexuais? As mulheres homossexuais são as ‘abençoadas’? Prá ver que Deus (e o Diabo) tem coisas mais sérias prá se ocupar do que com moralismos perversos...

Mas então, como mulher que transa com mulher também se chupa, dá prá dizer que, quanto ao HIV, o risco da relação boca-boceta (cunilíngua, cunnilingus) é praticamente teórico, tanto prá mulher que chupa quanto prá que está sendo chupada.

Por decorrência, quando um homem chupar uma mulher ambos vão correr um risco teórico também. Há um bem conhecido estudo espanhol (de 2002) prá justificar esta afirmação. No estudo, uma equipe de pesquisadores acompanhou, durante dez anos (de 1990 a 2000), 135 pessoas heterossexuais (110 mulheres e 25 homens) que eram negativas para o HIV e cujo único risco, ao longo desse período, era manter sexo oral sem proteção (tanto boca-pau quanto boca-boceta) com seus parceiros/parceiras que eram conhecidamente positivos para o HIV. Suas relações vaginais e anais foram sempre protegidas. Ao fim do estudo, após cerca de 19.000 exposições orogenitais desprotegidas, não ocorreu nenhuma soroconversão.
Mesmo assim, vale a pena levar em conta alguns cuidados, como evitar sexo oral sem proteção se a parceira que vai ser chupada estiver no período menstrual, ou se ela tiver lesões aparentes na vulva, ou quando quem vai chupar tiver lesões na boca. Sem proteção, também é recomendável ficar mais centrado no clitóris (grelo) e nas porções externas da vagina.
Enfim, embora as chances estatísticas de infecção pelo HIV por esta via sejam quase desprezíveis, outras DST podem ser adquiridas desse modo, tanto na direção boca-boceta quanto vice-versa.
Então, se você não sabe se a pessoa tem ou não alguma DST, use alguma barreira de proteção.
Prá relação boca-boceta é recomendado o uso de dental dam (um quadrado ou retângulo de látex comprável em sex shops ou em lojas de produtos odontológicos) ou de papel filme (tem no supermercado – mostrado na postagem anterior).

A camisinha (com ou sem sabor) também pode ser transformada em um retângulo de látex e é uma proteção adequada. Veja abaixo o “passo-a-passo”.
























Na avaliação das práticas sexuais, especialmente quanto ao HIV, é importante levar em conta os fantasmas do moralismo. Nunca ouvi de algum homem o relato de uso de barreira prá chupar uma mulher. Mas já li recomendações para que lésbicas (!) as usem, assim como ‘dedeiras’ prá enfiar o dedo na boceta de suas parceiras.
Vocês conhecem algum casal heterossexual que use ‘dedeiras’ nas relações sexuais ou que assim tenha sido recomendado por profissionais de saúde? Nem eu.

Se a gente não para prá pensar, o prazer dança. Ou os cuidados e a prevenção vão pro espaço, naquela lógica do ‘já que tô ferrado, que seja ferrado-e-meio’...

Na próxima postagem, enfim, vamos ver o que acontece quando a boca encontra um pau pelo caminho...

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sexo Oral – Parte 1

Falar nos riscos de infecção pelo HIV através de sexo oral é complicado devido ao grande número de variáveis envolvidas.
Em primeiro lugar, só dá prá falar em risco zero ou práticas sexuais 100% inócuas frente ao HIV quando não houver penetração, ou seja, nas práticas de sexo seguro, quando não houver pau entrando em algum ‘buraco’ do corpo, como na masturbação mútua e no arrêto (frottage, esfregação, com ou sem roupas).
Mas se podem utilizar as informações existentes para fazer uma avaliação de riscos adequada e adotar medidas para evitá-los ou reduzi-los. No sexo oral existe risco, sim, e não apenas teórico, embora, mesmo assim, seja um risco extremamente, extremamente, baixo. E variável!

Esse debate rola desde o início da epidemia de HIV/aids. Considerando que, em maior ou menor grau, o HIV está presente no sangue, sêmen (esperma, porra), no líquido seminal (pré-ejaculatório) assim como nas secreções vaginais (lubrificação natural da vagina), e que, além disso, várias doenças sexualmente transmissíveis (DST), como gonorréia, sífilis, herpes e outras, são transmitidas através do sexo oral, parece lógico que estas práticas sejam vias de transmissão do vírus da aids.
No entanto, a maioria dos estudos publicados indica que a transmissão do HIV por sexo oral é muito rara e incomum.

De qualquer forma, é difícil quantificar adequadamente o risco de transmissão do HIV através do sexo oral, porque quase nunca é uma prática exclusiva: em geral, as pessoas também praticam penetração vaginal ou anal, nem sempre com a devida proteção. E, pior, nem sempre revelam isso.
O ragazzo da foto abaixo tá fazendo sexo oral... mas tá ‘esquecendo’ do outro parceiro.


Se a gente levar em conta que existem pessoas que se sentem culpadas por praticar sexo oral, achando que é perversão ou pecado (é incrível, mas em pleno século XXI ainda tem gente que pensa assim!), é fácil entender que muita gente fique bem grilada, achando que correm sérios riscos de infecção pelo HIV através do sexo oral. Não conseguem fazer uma leitura adequada das informações disponíveis por conta de moralismos e outras subjetividades (nem sempre saudáveis).

Os cuidados preventivos para evitar a infecção pelo HIV e outras DST são necessários sempre que se desconhecer se a pessoa com quem se estiver transando é portadora ou não dessas infecções. Ou seja, se eu e meu parceiro ou parceira já fizemos avaliação médica e laboratorial quanto ao HIV e outras DST e não estamos infectados e, além disso, temos um acordo confiável de que não transamos com outras pessoas sem adotar medidas de prevenção, pode se abrir mão dos cuidados preventivos. Se não há o que evitar, podem ser dispensadas as ‘barreiras de proteção’. Se houver alguma dúvida, no entanto, elas são necessárias. É uma questão de avaliação pessoal e vale para qualquer prática sexual. Inclusive sexo oral.
A gente sabe que o sexo oral é uma prática comum (e muito prazerosa) entre parceiros homo ou heterossexuais e que, na imensa maioria das vezes, não são usadas ‘barreiras de proteção’, como a camisinha, o dental dam (que é um quadrado de látex) ou mesmo o filme plástico (daqueles de embrulhar sanduíche, como na foto abaixo). Por isso a importância de se abordar esta questão com o máximo de detalhes.


Vamos abordar este assunto por partes, então.
Como acontece com quase tudo na vida, a avaliação de risco depende de vários fatores.
Prá início de conversa é preciso avaliar quem está fazendo o quê. Mesmo que você seja bem versátil (o que é uma qualidade) é bom saber que cada prática sexual apresenta riscos diversos. Avalie.
A regra geral e básica é: afora circunstâncias especiais, da boca de uma pessoa não sai HIV, a não ser pelas fantasias que o preconceito provoca. Apesar das reticências no início da epidemia no século passado (e de alguns desinformados do século atual), ninguém pega o HIV pelo beijo ou pela bomba do chimarrão.
Então, uma boca que chupa um pau ou uma boceta pode passar outras DST pro chupado, mas não passa HIV (a não ser que haja sangramento oral). Ou seja, prá quem está sendo chupado o risco frente ao HIV é, sobretudo, teórico, tanto que os estudos conhecidos não apresentam casos definitivamente confirmados.
Na próxima postagem a gente avança um pouco mais - (só prá não ir com muita sede ao pote ou seja lá aonde a boca estiver indo...).